Te cuida
Imediatamente, lembrei as inúmeras vezes em que fui exposta a essa expressão. Inicialmente, ela apenas me causava estranheza e colocava uma lista infindável de dúvidas na minha cabeça. Eu ficava horas pensando sobre o que o tal “te cuida” queria dizer. Seria apenas uma forma diferenciada de dar tchau, seria uma tentativa de me dizer, entrelinhas, que eu precisava me cuidar melhor ou queria dizer “eu não pretendo te ver mais”?
Ao longo do tempo, as atitudes que seguiram o maldito “te cuida” me provaram que o significado dessas duas pequenas palavras era o pior possível.
Fecho os olhos e vejo novamente a cena do meu amado me deixando em casa após uma noite de beijos, palavras de carinho e muitas saudades. Era a primeira vez que nos revíamos após um afastamento de anos e aquela era uma espécie de segunda chance do destino para a nossa história. A minha expectativa com a despedida era imensa. Meu coração estava disparado e a minha ansiedade podia ser vista no tremor das minhas pálpebras. Para mim, aquele momento seria decisivo, afinal, teria a chance de ouvir alguma declaração mais incisiva, uma espécie de saldo do encontro e qualquer promessa concreta de programas futuros.
A resposta para todas as minhas divagações foi um beijo sem graça, acompanhado de duas expressões intrigantes: “a gente se fala” e “te cuida”.
É preciso lembrar que, quase nunca, o “te cuida” aparece sozinho. Ele sempre é piorado por uma expressão que ajuda a mostrar que o contato não irá ocorrer mesmo. O “a gente se fala” é o mais usado, pois consegue dar, na medida certa, um tom vago e despretensioso, atenuando a crueza do “até nunca mais”.
Em outras palavras, “te cuida” é um eufemismo para uma intenção de desprezo tipicamente masculina. Significa que você precisará se cuidar com todo o zelo do mundo porque a pessoa em questão não poderá fazê-lo por você. Por quê? Simplesmente porque não quer.
Não vai haver ligações, torpedos, saídas, abraços, beijos e muito menos romance. Não vai haver histórias, encontros nem trocas. Não vai haver paixão, emoção, trepidação. Resumindo, não vai haver relação.
A partir de todas essas constatações doloridas, a minha alegria se esgota no exato momento em que alguém manda eu me cuidar. Ao menos, após essas míseras palavras serem despejadas no meu ouvido ingênuo, eu sei que não tenho o que esperar. Não existe amanhã nem talvez. Era hoje e acabou de chegar ao fim.
Já passei por essa situação inúmeras vezes e sei que, enquanto estiver solteira, ainda vou vivenciar esse incômodo em outras tantas ocasiões. O que consola é que, agora, tenho convicção de que o “te cuida” é sinônimo do “eu não vou cuidar de você”. E já que é assim, fazer o quê? Cuido eu, né?
